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Cérebro social: estudo revela como narrativas ativam redes neurais da empatia e da compreensão do outro
Pesquisa internacional com fMRI mostra que interações sociais e teoria da mente compartilham circuitos cerebrais — mas também apresentam funções distintas com impacto na psicologia, educação e saúde mental
Por Laercio Damasceno - 04/04/2026


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Em um avanço significativo para a neurociência social, um estudo publicado neste sábado (4), na revista Nature Communications, lança nova luz sobre como o cérebro humano processa histórias e, sobretudo, como compreende outras pessoas. A pesquisa, liderada por Zizhuang Miao, Heejung Jung e Tor D. Wager, da Dartmouth College, em colaboração com cientistas da Emory University e da Johns Hopkins University, revela que dois processos fundamentais — a percepção de interações sociais e a chamada “teoria da mente” — compartilham bases neurais comuns, mas também apresentam diferenças importantes .

A teoria da mente (ToM, na sigla em inglês) refere-se à capacidade de inferir pensamentos, intenções e emoções de outras pessoas — habilidade central para a vida em sociedade. Já o processamento de interações sociais envolve reconhecer quando indivíduos estão se relacionando entre si. Embora frequentemente ocorram juntos, esses processos nem sempre são idênticos.

Para investigar essa relação, os pesquisadores analisaram dados de dois experimentos complementares. No primeiro, 231 participantes avaliaram, em tempo real, o grau de interação social e o uso da teoria da mente ao ler e ouvir narrativas. No segundo, um grupo independente de 90 voluntários teve sua atividade cerebral monitorada por meio de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto era exposto às mesmas histórias .

Os resultados mostram que os dois processos estão apenas moderadamente correlacionados (r = 0,32), sugerindo que, embora relacionados, são parcialmente independentes. “Nossos dados indicam que perceber interações sociais frequentemente engaja automaticamente regiões cerebrais associadas à teoria da mente”, afirma Tor D. Wager, autor sênior do estudo. “Mas a teoria da mente vai além, recrutando áreas adicionais ligadas à compreensão de ações e intenções” .

Do ponto de vista neural, o estudo identificou uma sobreposição significativa em regiões clássicas da cognição social, como o sulco temporal superior (STS), o córtex pré-frontal dorsomedial (dmPFC) e a junção temporoparietal (TPJ). Essas áreas são amplamente reconhecidas por sua participação na empatia e na interpretação de estados mentais alheios .

No entanto, a teoria da mente demonstrou ativar regiões adicionais, como o sulco intraparietal anterior, o córtex occipitotemporal lateral e a área motora suplementar. Essas áreas estão associadas à compreensão de ações e ao planejamento motor, indicando que inferir pensamentos pode envolver simulações mais complexas do comportamento humano .

Outro achado relevante é que essas respostas neurais foram consistentes tanto na leitura quanto na audição das narrativas. A correlação espacial entre os mapas cerebrais das duas modalidades foi alta (r = 0,60), sugerindo que o cérebro processa conceitos sociais de forma independente do canal sensorial. Isso reforça a ideia de que a cognição social opera em nível abstrato, e não apenas perceptivo.

A robustez metodológica também chama atenção. As avaliações subjetivas dos participantes apresentaram alta confiabilidade (correlações internas superiores a 0,9), indicando que as pessoas são consistentes ao identificar momentos de interação social e reflexão sobre estados mentais. “Isso mostra que a experiência subjetiva é uma ferramenta válida para mapear processos cognitivos complexos”, destaca Heejung Jung .

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Historicamente, a neurociência tratou percepção social e teoria da mente como campos separados. Estudos clássicos focavam ora em estímulos visuais — como movimentos corporais —, ora em tarefas explícitas de raciocínio sobre crenças falsas. Essa divisão, segundo os autores, pode ter obscurecido a compreensão de como esses processos se integram no cotidiano.

“O uso de narrativas naturais permite capturar a complexidade da vida real, onde percepção e inferência ocorrem simultaneamente”, explica Philip A. Kragel, coautor do estudo. De fato, ao utilizar histórias em vez de estímulos artificiais, os pesquisadores conseguiram aproximar o experimento da experiência cotidiana.

O impacto das descobertas vai além da teoria. Na prática, compreender como o cérebro processa interações sociais pode ajudar no diagnóstico e tratamento de transtornos como autismo, esquizofrenia e depressão, nos quais a leitura de intenções alheias é frequentemente prejudicada.

Além disso, os resultados têm implicações para a educação e a comunicação. Narrativas — sejam literárias, jornalísticas ou audiovisuais — podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da empatia, ao ativar redes cerebrais ligadas à compreensão do outro.

O estudo também dialoga com debates contemporâneos sobre o papel das mídias e das redes sociais na formação da cognição social. Em um mundo cada vez mais mediado por textos e áudios, entender como essas formas de comunicação moldam o cérebro torna-se uma questão central.

Apesar dos avanços, os autores reconhecem limitações. O estudo se concentrou em adultos e utilizou narrativas específicas, o que pode restringir a generalização dos resultados. Pesquisas futuras devem explorar diferentes culturas, faixas etárias e tipos de estímulo.

Ainda assim, o trabalho representa um marco ao demonstrar que a capacidade humana de entender o outro — base da vida social — emerge de uma interação sofisticada entre percepção e inferência. Como resume Wager: “Nosso cérebro não apenas vê o que as pessoas fazem, mas automaticamente tenta entender por quê” .

Em tempos de polarização e fragmentação social, compreender os mecanismos neurais da empatia pode ser mais do que um avanço científico — pode ser uma ferramenta para reconstruir pontes entre indivíduos e sociedades.


Referência
Miao, Z., Jung, H., Kragel, PA et al. Correlatos neurais comuns e distintos do processamento da interação social e da teoria da mente em narrativas. Nat Commun (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-71151-2

 

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